Essa reflexão começou de um jeito bastante simples: em uma conversa com meu marido, contei a ele sobre uma ideia que estava me atravessando enquanto eu lia Em mim basta!: o poder de pular fora quando nada mais faz sentido, de William Sanches. Eu estava pensando sobre a maneira como nossas crenças influenciam nossas ações e sobre como, às vezes, podemos acabar criando experiências que confirmam aquilo em que já acreditamos.
Ele ouviu e respondeu, com a maior tranquilidade do mundo: “Ah, isso eu já sei. É só pensar positivo.”
E foi aí que eu pensei: não. Não é só isso.
Não porque pensar de uma maneira mais positiva seja necessariamente ruim, mas porque a ideia que estava me interessando era outra. Eu não estava falando sobre pegar um pensamento ruim, colocar uma roupinha bonita nele e fingir que agora está tudo bem. Estava pensando sobre algo um pouco mais trabalhoso: e se eu puder questionar a forma como estou interpretando aquilo que acontece comigo?
A diferença parece pequena, mas, para mim, mudou completamente a conversa.
Se eu penso sobre o que penso, posso começar a escolher o que fazer com isso
Algumas ideias chegam tão cedo à nossa cabeça que, depois de um tempo, deixam de parecer ideias e passam a parecer fatos. “Eu sou assim.” “Dinheiro é difícil.” “Eu nunca consigo terminar o que começo.” “O frio me deixa mal.” “Isso não é para mim.” “As coisas sempre dão errado.”
A gente repete essas frases tantas vezes que elas começam a funcionar como pequenas regras internas. Sem perceber, passamos a tomar decisões a partir delas, interpretar acontecimentos por meio delas e, principalmente, procurar evidências que confirmem aquilo que já acreditamos.
Foi uma reflexão parecida que tive enquanto lia o livro. Se eu consigo observar aquilo que penso, então consigo, pelo menos, começar a questionar esse pensamento. E, se consigo questioná-lo, talvez consiga perceber que uma interpretação não é necessariamente a única possível.
Isso não significa que posso simplesmente escolher qualquer pensamento e substituí-lo por outro mais bonito. Seria ótimo, inclusive. Bastaria pensar “sou milionária” três vezes antes do café e esperar o Pix cair. Mas a questão que me interessa é outra: quando percebo que existe uma interpretação por trás daquilo que estou sentindo ou fazendo, também posso investigar de onde ela veio, o que ela está produzindo em mim e se existem outras maneiras de me relacionar com aquela mesma situação.
Talvez não seja apenas pensar positivo
Acho importante fazer essa distinção porque “pensamento positivo” pode dar a impressão de que precisamos transformar qualquer experiência ruim em uma experiência boa. Está frio? Pense positivo: o frio é maravilhoso. Está difícil ganhar dinheiro? Pense positivo: dinheiro chega facilmente até mim. Alguma coisa deu errado? Pense positivo: tudo acontece por uma razão.
Mas e quando eu não acredito nisso?
Talvez seja justamente aí que a reflexão fique mais interessante. Não preciso afirmar que o frio é maravilhoso quando, para mim, ele não é. Também não preciso fingir que uma dificuldade financeira deixou de existir porque decidi enxergá-la de outra maneira.

Posso simplesmente perguntar: que significado estou dando a isso? E será que existe outra possibilidade?
Essa pergunta não muda o fato. Ela muda o espaço que existe entre o fato e a minha reação a ele.
Um exemplo bastante banal: o frio

Durante muito tempo, associei dias frios a uma sensação de desânimo, isolamento e chatice. O frio chegava e, quase automaticamente, eu já esperava que aqueles dias fossem ruins. Como consequência, minhas próprias escolhas acabavam contribuindo para confirmar essa expectativa. Eu ficava mais parada, fazia menos coisas, me isolava mais e, no fim, tinha ainda mais motivos para pensar: “Está vendo? Eu sabia que o frio era uma droga.”
É quase uma pequena profecia autorrealizável.
A partir dessa percepção, pensei que poderia experimentar fazer o contrário. Não no sentido de me convencer de que o frio é bom, mas de criar experiências que não combinem com a história que sempre associei a ele. Posso fazer uma noite de fondue e vinho, assistir a um filme enrolada no cobertor, jogar alguma coisa, acender uma fogueira com queijo e marshmallow na casa da minha sogra ou simplesmente descobrir alguma atividade que faça sentido para mim naquele clima.
Talvez eu continue preferindo o verão. Tudo bem.
A questão é descobrir, pela experiência, que o frio não precisa significar uma única coisa. Ele pode continuar sendo frio e, ao mesmo tempo, estar associado a uma noite gostosa, uma conversa boa, uma atividade diferente ou simplesmente a um momento de descanso.
Não estou tentando convencer a mim mesma de que aquilo que antes parecia ruim é, na verdade, bom. Estou experimentando outras possibilidades para descobrir se a minha primeira interpretação é realmente a única possível.
Talvez eu esteja ajudando a construir a prova daquilo em que acredito
Foi aqui que a reflexão começou a ficar mais pessoal.
Tenho percebido que algumas questões que me angustiam há bastante tempo talvez não sejam formadas apenas pelos acontecimentos em si, mas também pelas histórias que construí ao redor deles. A questão financeira é um exemplo que tem me feito pensar bastante. Existe o dinheiro que entra, o dinheiro que sai, as responsabilidades, as escolhas e todos os aspectos concretos que precisam ser considerados. Mas existe também tudo aquilo que aprendi a associar ao dinheiro: medo, escassez, insegurança, culpa, cobrança e a sensação de que nunca é suficiente.

Essas coisas não desaparecem simplesmente porque decidi pensar diferente. E talvez esse seja justamente o ponto. Eu não preciso me convencer de que está tudo bem. Preciso começar a observar o que estou pensando, quais comportamentos esses pensamentos produzem e se algumas das minhas atitudes estão, de alguma maneira, ajudando a manter a própria crença que me angustia.
Se acredito que determinada coisa é difícil demais para mim, por exemplo, posso evitar situações que me fariam desenvolver aquela habilidade. Depois, olho para a minha falta de experiência e concluo que realmente não sou capaz. A crença influencia uma ação, a ação produz uma consequência e a consequência pode acabar parecendo uma confirmação da crença.
E o ciclo continua.
Por isso, uma pergunta que quero começar a fazer para mim mesma é: “Eu realmente acredito nisso ou estou agindo a partir de uma crença que me limita?” Não para transformar qualquer dificuldade em uma questão de pensamento positivo, mas para investigar a minha própria participação naquilo que estou vivendo.
E se eu experimentasse o oposto?

Talvez algumas mudanças não comecem quando encontramos uma resposta, mas quando interrompemos um padrão. Se sempre faço determinada coisa quando acredito que algo vai dar errado, o que aconteceria se, em uma situação semelhante, eu experimentasse agir de outra maneira?
Se sempre me escondo quando sinto insegurança, o que acontece se eu me permito aparecer? Se sempre associo dinheiro a medo, o que acontece se começo a construir uma relação com ele baseada também em planejamento, curiosidade e possibilidade? Se sempre espero que um dia frio seja ruim, o que acontece se eu deliberadamente crio uma experiência boa em um dia frio?
Não existe garantia de que a experiência nova vai funcionar. E acho que isso é importante. A proposta não é trocar uma certeza negativa por uma certeza positiva. É abrir espaço para descobrir.
Talvez eu descubra que estava errada. Talvez descubra que estava parcialmente certa. Talvez perceba que aquela situação realmente é difícil, mas que existem maneiras diferentes de atravessá-la.
E isso, para mim, é muito mais interessante do que simplesmente “pensar positivo”.
Nem tudo precisa significar aquilo que sempre significou
Talvez seja essa a parte da reflexão que mais quero levar comigo.
Uma situação não necessariamente possui um único significado. A maneira como interpretamos o que acontece influencia a forma como nos relacionamos com aquilo, e essa relação pode ser investigada.
Isso não significa ignorar aquilo que é difícil, romantizar sofrimento ou acreditar que basta mudar a perspectiva para resolver problemas concretos. Algumas situações exigem ação prática, outras exigem tempo e algumas talvez precisem de ajuda. O que estou tentando compreender é algo mais simples: talvez exista uma pequena fresta entre aquilo que acontece e a história que contamos sobre aquilo que acontece.

É nessa fresta que posso perguntar: existe outra maneira de olhar para isso? Existe alguma experiência que ainda não vivi porque estou ocupada demais tentando confirmar aquilo que já acredito? Existe alguma atitude que continuo repetindo não porque ela me faz bem, mas porque mantém intacta uma história que já conheço?
Talvez algumas mudanças comecem justamente aí: não quando encontramos uma resposta definitiva, mas quando deixamos de tratar a nossa primeira interpretação como a única possível.
No caso do frio, talvez eu ainda reclame quando a temperatura cair. Não prometo milagres. Mas agora posso fazer outra coisa também: experimentar. Posso criar uma experiência diferente antes de concluir que aquele período será ruim.
E talvez seja esse o ponto. Não preciso me convencer de que aquilo que antes parecia ruim é bom. Posso simplesmente descobrir que existem mais possibilidades do que aquelas que eu conseguia enxergar antes.
Talvez pensar sobre o que penso seja uma maneira de criar esse espaço. E, nesse espaço, finalmente escolher o que fazer com aquilo que encontro.
Uma pergunta para levar daqui
Na próxima vez que você perceber que está reagindo de uma maneira que não faz bem para você, talvez valha a pena parar por alguns minutos e perguntar:
“Estou escolhendo isso ou estou apenas repetindo uma crença que já conheço?”
Talvez você não encontre uma resposta imediatamente. Mas talvez a pergunta já seja um começo.
Para continuar a leitura
Essa reflexão surgiu a partir da leitura de Em mim basta!: o poder de pular fora quando nada mais faz sentido, de William Sanches. Se você ficou curiosa para conhecer o livro e descobrir quais insights você mesma pode tirar da leitura, deixo aqui o link para encontrá-lo na Amazon:
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Referência
SANCHES, William. Em mim basta!: o poder de pular fora quando nada mais faz sentido. Citadel Editora, 2022.
Além do livro, esta reflexão também dialoga com conceitos relacionados à influência das crenças sobre a interpretação das experiências e sobre nossos comportamentos. As referências podem ser utilizadas como ponto de partida para quem quiser aprofundar o assunto.